Febre Oropouche: Goiás confirma primeiro caso da doença

Paciente teve sintomas leves e evoluiu para cura em Anápolis. Doença é transmitida por mosquito diferente do Aedes aegypti e pode ter recidiva dos sintomas.

Mosquito maruim, conhecido como mosquito-pólvora, é o principal transmissor da febre Oropouche — Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

Goiás confirmou o primeiro caso de febre Oropouche, doença viral transmitida por mosquito, no município de Anápolis. O paciente é um homem adulto, que apresentou sintomas leves, foi atendido na rede de saúde e já está curado, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (SES). O caso é considerado autóctone, ou seja, com transmissão dentro do próprio estado.

A confirmação foi feita após investigação laboratorial iniciada com suspeita de dengue. De acordo com a subsecretária de Vigilância em Saúde, Flúvia Amorim, o estado já vinha se preparando para identificar a circulação do vírus, que passou a se espalhar pelo Brasil nos últimos anos. “Desde 2023, o Ministério da Saúde vem alertando sobre a dispersão do vírus pelo país. Diante disso, Goiás estruturou a vigilância laboratorial para identificar possíveis casos. Todas as amostras que dão negativo para dengue, zika e chikungunya também são testadas para Oropouche”, explicou.

Segundo a SES, mais de 6 mil amostras foram analisadas neste ano, e apenas uma teve resultado positivo até o momento. O paciente procurou atendimento no dia 24 de março com sintomas como febre, tontura e exantema, inicialmente tratados como suspeita de dengue.

Doença já circula no Brasil

Apesar de ser novidade em Goiás, a febre Oropouche não é uma doença nova no país. O vírus foi identificado pela primeira vez na década de 1960, durante a construção da rodovia Belém-Brasília, e, por muitos anos, permaneceu restrito à região amazônica. De acordo com Flúvia Amorim, o cenário começou a mudar recentemente. “A partir de 2023, houve uma dispersão mais rápida do vírus para outras regiões do Brasil. Em 2025, foram quase 12 mil casos registrados no país, o que mostra que a doença já está presente em grande parte dos estados”, afirmou.

A infectologista Juliana Barreto aponta que fatores ambientais podem estar relacionados a esse avanço. Segundo ela, mudanças climáticas, desmatamento e maior circulação de pessoas favorecem a expansão de vírus antes restritos a áreas específicas. “Essas transformações fazem com que vetores e doenças se desloquem. O que antes ficava concentrado na Amazônia hoje consegue alcançar outras regiões, o que acende um alerta para a vigilância em saúde”, explicou.

Transmissão ocorre por mosquito diferente

Diferente da dengue, zika e chikungunya, a febre Oropouche não é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. O principal vetor é o Culicoides paraensis, conhecido popularmente como maruim ou mosquito-pólvora. Esse inseto é muito menor que o Aedes — cerca de 20 vezes menor — e costuma picar principalmente ao amanhecer e ao entardecer. Ele se reproduz em ambientes com matéria orgânica, como folhas, restos de frutas e locais úmidos. “É um mosquito muito comum em áreas com matéria orgânica acumulada. Por isso, a limpeza desses ambientes é fundamental para reduzir a presença do vetor”, destacou Flúvia. As equipes de vigilância já identificaram a presença do maruim em Anápolis, o que reforça a necessidade de monitoramento e ações preventivas no município.

Sintomas podem ser confundidos com dengue

Os sintomas da febre Oropouche são muito semelhantes aos de outras arboviroses, o que pode dificultar o diagnóstico inicial. Entre os principais sinais estão febre, dor de cabeça intensa, dores no corpo, náusea, diarreia e prostração. Segundo Juliana Barreto, essa semelhança exige atenção dos profissionais de saúde. “É um quadro muito parecido com dengue, zika e chikungunya. Por isso, muitas vezes o diagnóstico inicial é outro, e só depois, com exames específicos, se identifica o Oropouche”, explicou.

Um dos principais diferenciais da doença é a possibilidade de recidiva dos sintomas. Ou seja, após um período de melhora, o paciente pode voltar a apresentar sinais da doença. “Em cerca de 60% dos casos, a pessoa melhora e, uma ou duas semanas depois, os sintomas retornam. Isso é algo que chama atenção e ajuda a diferenciar de outras arboviroses”, disse Flúvia. No caso registrado em Goiás, esse padrão foi observado e contribuiu para a confirmação do diagnóstico.

Tratamento é sintomático

Assim como outras arboviroses, a febre Oropouche não tem tratamento específico. O cuidado é feito com base nos sintomas apresentados pelo paciente, com uso de analgésicos, antitérmicos e hidratação. A infectologista alerta para a importância de evitar o uso de anti-inflamatórios sem orientação médica, principalmente antes de descartar dengue, devido ao risco de complicações. “Na maioria dos casos, a evolução é leve, mas é fundamental procurar atendimento médico para avaliação correta e acompanhamento”, afirmou.

Prevenção envolve cuidados com o ambiente

A principal forma de prevenção é evitar a picada do mosquito transmissor. Entre as orientações estão o uso de roupas de manga comprida, evitar exposição em áreas com presença de maruim e manter ambientes limpos, sem acúmulo de matéria orgânica. Embora o uso de repelentes seja recomendado, a eficácia contra o maruim ainda é considerada limitada, segundo a Secretaria de Saúde.

Flúvia Amorim reforça que não há motivo para pânico, mas destaca a importância da informação. “É uma doença nova para o estado, e a população precisa conhecer os sintomas e as formas de prevenção. A vigilância está ativa para identificar rapidamente novos casos e evitar a disseminação”, afirmou.

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