Ronaldo Alves de Oliveira responderá por feminicídio e tentativa de homicídio triplamente qualificados. Já Nábia Rosa Pimenta responderá pelos mesmos crimes, mas por omissão imprópria.

A mãe e o padrasto das crianças envenenadas com chumbinho em Alto Horizonte, no norte de Goiás, foram indiciados pela polícia, segundo o delegado responsável pelo caso, Domênico Rocha. Ronaldo Alves de Oliveira vai responder por feminicídio e homicídio tentado, ambos triplamente qualificados. Já Nábia Rosa Pimenta responderá pelos mesmos crimes, mas por omissão imprópria, por não ter agido para evitá-los.
O caso aconteceu no dia 27 de março, quando a família se reuniu para jantar, na varanda da casa. Poucas horas depois da refeição, Weslenny Rosa Lima, de 9 anos, começou a passar mal e foi levada para o hospital. Ela morreu em seguida. O irmão, de 8 anos, também foi hospitalizado e chegou a ficar internado em estado grave, mas sobreviveu.
Em depoimento à polícia, tanto a mãe quanto o padrasto negaram os crimes. Em nota, a defesa de Ronaldo afirmou que recebeu a conclusão do inquérito com serenidade e que não irá se manifestar sobre o caso. Disse, ainda, que “confia plenamente no devido processo legal, no contraditório e na ampla defesa”.
De acordo com o delegado, a autoria de Ronaldo, que está preso preventivamente desde o dia 2 de abril, foi confirmada por vários fatores, entre eles a análise das imagens capturadas pela câmera que havia na casa da família, que mostrou que, durante o jantar, o padrasto se levantou com o prato cheio de alimento branco, indicando que ele não teria consumido. “O que nos permite concluir que ele evitou comer o arroz envenenado, justificando seu exame toxicológico negativo”, disse o delegado.
Domênico afirmou que o exame toxicológico de Nábia também deu negativo, o que indica também que ela não teria consumido o arroz envenenado. Segundo a Polícia Científica, tanto a mãe quanto o padrasto tiveram o sangue coletado por volta das 18h de sábado, 28 de março, dia seguinte ao do crime. Apesar de ela ter sido indiciada, o delegado afirmou que a prisão da mãe não foi pedida porque não há elementos para isso. “Especialmente porque o pai biológico já está com a guarda unilateral do menino”, explicou.
Ao divulgar a conclusão do inquérito, o delegado destacou a relação conturbada que o casal vivia, que estava junto havia cinco anos. Ele afirma que, os desentendimentos e as discussões constantes, relatadas pela própria mãe, permitem concluir que ela “recebeu sinais claros do companheiro e que poderia evitar toda essa tragédia”. “Mas, ao contrário, ela decidiu continuar a relação, expondo as crianças a toda essa fatalidade”, disse. De acordo com o delegado, Ronaldo permanece preso preventivamente na unidade prisional de Uruaçu.
O que aconteceu no dia
Em depoimento à polícia, tanto Ronaldo quanto Nábia afirmaram que ele cozinhou, naquela noite, apenas arroz e feijão. A carne moída já estava pronta, pois havia sido preparada de manhã, para o almoço. A mãe das crianças contou que, na janta, ela fez o próprio prato e também o das duas crianças. O delegado Domênico disse não se recordar qual era a ordem exata de aparecimento de cada membro da família na varanda, mas que Weslenny foi a última a sair da cozinha, carregando o seu próprio prato.
Em seguida, todos os quatro comeram juntos, ao mesmo tempo. Segundo o delegado, apesar de as imagens da câmera da varanda mostrarem Ronaldo se levantando com o prato com bastante alimento branco, semelhante a arroz, tanto ela quanto ele afirmaram que comeram o arroz. “Eles comeram do arroz que não havia veneno”, disse o delegado, referindo-se ao casal.
Esse é um dos pontos não esclarecidos pela polícia, uma vez que a mãe disse que serviu o arroz para os dois filhos, mas apenas o deles estava envenenado. Segundo Domênico, o veneno pode ter sido administrado sem ela ter percebido. “Em que momento houve ministrado esse veneno na comida é algo que realmente as investigações não conseguiram descortinar e não vão conseguir, porque está fora das imagens”, disse.
A perícia da Polícia Científica identificou a presença de terbufós, substância conhecida como “chumbinho”, na panela de arroz, que estava guardado dentro da geladeira. Em depoimento à polícia, Nábia afirmou que viu Ronaldo guardando a panela.
Para o delegado, o fato pode ter sido um descuido do padrasto. “Às vezes, ele não esperasse que a polícia fosse diligente ao ponto de ir até a casa, de fazer uma varredura no local e encontrar essa comida”, avaliou. As imagens da câmera da varanda também mostram Ronaldo colocando o lixo para fora da casa. Foi nesses resíduos que a polícia também encontrou o arroz envenenado, que acabou sendo comido por gatos da vizinhança. Os felinos morreram depois. A perícia também concluiu que as mortes foram por chumbinho.
Depois da refeição, Weslenny começou a vomitar, sentir dor e ter crises convulsivas. “Eu entrei lá no quarto, aí ela tava chorando. ‘Mãe, minha barriga tá doendo’. E ela geladinha. Eu vi que ela não tava normal”, disse Nábia.
Em seguida, a menina pediu à mãe para ser levada para o hospital da cidade, mas não resistiu. Pouco tempo depois, o irmão dela também passou mal e foi encaminhado ao Hospital Estadual do Centro-Norte Goiano (HCN), em Uruaçu, onde ficou internado por onze dias. Hoje, ele mora com o pai.
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